Salão e barbearia

Não quero sair do MEI. O que acontece?

O limite do MEI é por ano. Quando você passa dele, sai do MEI mesmo sem pedir. Veja os dois cenários, a conta que volta no tempo e quando vale continuar.

8 min de leituraPor Alessandra Meireles da Silva

"Não quero sair do MEI." Essa frase aparece em quase toda conversa com salão e barbearia que estão crescendo. E faz todo sentido. O MEI é barato. É uma guia por mês, uma declaração por ano e pronto. Depois de anos brigando com papelada, é natural querer ficar ali.

O que quase ninguém sabe é que sair do MEI não é bem uma escolha. Existe um limite de faturamento por ano. Quando o limite é ultrapassado, você deixa de ser MEI, com pedido seu ou sem. Em um dos casos, a conta ainda volta no tempo. Então vale entender como isso funciona antes de precisar.

Resumo rápido

  • O limite do MEI é de R$ 81.000 por ano. Dá uma média de R$ 6.750 por mês. Quem abriu o CNPJ no meio do ano tem limite menor, proporcional.
  • Se você passar pouco, até R$ 97.200, segue MEI até dezembro, paga uma guia a mais e vira microempresa em 1º de janeiro.
  • Se passar muito, acima de R$ 97.200, a saída volta para 1º de janeiro daquele mesmo ano. Todo o ano é recalculado.
  • Avisar é com você. A saída é comunicada no Portal do Simples Nacional. O sistema não resolve sozinho.
  • Faturamento não é lucro. Sair do MEI não quer dizer pagar uma fortuna: salão e barbearia costumam entrar no Simples Nacional com 6% sobre o que faturam.

Por que o MEI é tão confortável

Em 2026, com o salário mínimo em R$ 1.621,00, o MEI paga R$ 81,05 de INSS por mês. Some R$ 5,00 de ISS quando presta serviço e R$ 1,00 de ICMS quando vende mercadoria. Um salão ou uma barbearia que só presta serviço fica em R$ 86,05 por mês. Quem também vende produto na prateleira fica em R$ 87,05.

Por esse valor vem um CNPJ, nota fiscal, contribuição para o INSS, maquininha com taxa de empresa e acesso aos benefícios do INSS. É um dos regimes mais baratos que existem. Querer ficar nele não é exagero nenhum.

O limite é por ano, não por mês

Os R$ 81.000 são de tudo que entrou no ano. Não existe teto mensal. Aquela média de R$ 6.750 serve só para você se controlar. Faturar R$ 12.000 em dezembro não é problema, desde que o ano feche dentro do limite.

Quem abriu o CNPJ no meio do ano

Quem abriu em julho não tem R$ 81.000 de limite naquele ano. Tem R$ 6.750 vezes o número de meses de atividade. O mês da abertura conta inteiro, mesmo que o CNPJ tenha saído no último dia. De julho a dezembro são seis meses, então o limite daquele ano é de R$ 40.500.

O que entra na conta

Tudo que entra pela atividade. Serviço no dinheiro, no Pix, no crédito, no débito. Venda de shampoo, de pomada, de esmalte. Não importa se o cliente pediu nota ou não. Não importa se o dinheiro caiu na sua conta pessoal. É tudo que entrou, e não o que sobrou no fim do mês depois de pagar aluguel, produto e a sua retirada.

O que acontece quando passa

Passou pouco, até R$ 97.200

Você faturou entre R$ 81.000 e R$ 97.200 no ano. Você continua MEI até 31 de dezembro. Na declaração anual do MEI, entregue até 31 de maio do ano seguinte, o próprio sistema calcula uma guia a mais só sobre a parte que passou do limite. A partir de 1º de janeiro você passa a ser microempresa e recolhe pelo Simples Nacional.

Passou muito, acima de R$ 97.200

Aqui a régua muda. A saída do MEI volta para 1º de janeiro do ano em que você passou. Ou para a data de abertura, se o CNPJ nasceu naquele mesmo ano. Na prática, todo aquele ano precisa ser recalculado pelas regras do Simples Nacional, e não pelo valor fixo da guia mensal. Se o pagamento sair depois do prazo, entram multa e juros.

Avisar é com você

Nos dois casos, a saída do MEI é comunicada no Portal do Simples Nacional. O prazo vai até o último dia útil do mês seguinte ao mês em que o limite foi ultrapassado. Não avisar não faz o assunto sumir. Só faz ele chegar mais tarde e maior.

A Receita já enxerga esse número sozinha

Antigamente dava para contar com a demora. Hoje não é bem assim, e vale saber por quê.

O fisco cruza dados da e-Financeira, das operadoras de cartão, dos marketplaces, das notas eletrônicas e do Pix. O faturamento que você declara é comparado com o que se movimentou de verdade, sem ninguém precisar bater na sua porta.

O que mudou na fiscalização

43%

dos Pix feitos em 2025 foram de pessoa física para empresa, ou seja, direto para um CNPJ

3,9 milhões

de registros saíram do Simei em 2025, depois de revisão cadastral e cruzamento de dados

101 mil

avisos da malha fiscal digital chegaram a empresas no mesmo ano

Desde agosto de 2025, fintechs e instituições de pagamento também passaram a informar movimentação à Receita. Somando isso a maquininhas, marketplaces, notas eletrônicas e Pix, dá para comparar o que entrou na conta com o que foi declarado. Não é que a lei mudou: o que mudou foi a capacidade de conferir. Por isso a formalização deixou de ser só proteção contra processo, ela é o que comprova de quem é cada parte do dinheiro.

Em 2025 a Receita excluiu 3.942.902 registros do Simei depois de revisão cadastral e cruzamento de dados. A maior parte era CNPJ parado ou abandonado. Mas 82.948 saíram por um motivo bem direto: faturaram acima do limite do MEI.

Isso não é para assustar. É para mostrar que a conta chega de um jeito ou de outro. O que muda é se ela chega enquanto dá para se organizar ou depois, com multa e juros por cima.

Exemplo prático: a barbearia do Caio

Caio tem uma barbearia com duas cadeiras e CNPJ MEI. Vamos olhar dois anos dele, com números redondos.

Ano bom, passou pouco. Caio faturou R$ 8.000 por mês, R$ 96.000 no ano. Passou do limite, mas ficou abaixo de R$ 97.200. Ele segue MEI até dezembro. Em maio do ano seguinte, na declaração anual, o sistema calcula uma guia a mais sobre os R$ 15.000 que passaram. Em 1º de janeiro ele já é microempresa.

Ano ótimo, passou muito. No ano seguinte a barbearia cresceu e Caio faturou R$ 10.000 por mês, R$ 120.000 no ano. Passou de 20%. A saída do MEI volta para 1º de janeiro daquele ano e o ano inteiro é recalculado. Na conta redonda, com os 6% da primeira faixa, R$ 120.000 dariam por volta de R$ 7.200 de imposto no ano. Ele já pagou cerca de R$ 1.030 nas guias mensais, então sobra uma diferença de mais ou menos R$ 6.170, mais multa e juros pelo atraso.

Repare em duas coisas. A primeira: o valor não é impagável, dá algo entre 5% e 6% do que entrou no caixa. A segunda: Caio faturou R$ 120.000 naquele ano, ou seja, esse dinheiro passou pela mão dele. O problema não é a alíquota, é a surpresa. Quem descobre em janeiro se organiza. Quem descobre dois anos depois já gastou.

Como sair do MEI, passo a passo

  1. Some tudo que você faturou no ano.
  2. Veja se passou do limite e quanto passou.
  3. Comunique a saída no Portal do Simples Nacional.
  4. Escolha o novo enquadramento, em geral microempresa.
  5. Recalcule o ano anterior, se o estouro foi grande.
  6. Ajuste nota fiscal, guias e controle de caixa.

Se você atende como parceira de um salão

Esse assunto tem um capítulo a mais para quem trabalha como profissional parceira dentro de um salão ou de uma barbearia.

Enquanto a parceria está ativa, a lei coloca no estabelecimento a responsabilidade de reter e recolher os tributos sobre a sua cota-parte. Ou seja, a sua regularidade não é só sua. Ela aparece na contabilidade da casa também. Por isso é comum o dono perguntar se a guia está paga e quanto você já acumulou no ano. Não é curiosidade, é uma obrigação que a lei deu a ele.

E o caso mais comum é esse. A profissional vai bem, a agenda lota, a cota-parte sobe e, sem perceber, ela passa do limite do MEI. Vem o desenquadramento e, de um mês para o outro, ela cai em outro regime tributário, com apuração, declarações e prazos que o MEI não tinha. Aí precisa de contador, porque o novo regime não se resolve com uma guia fixa e uma declaração por ano.

Do outro lado, o salão também sente. Parceira com CNPJ baixado ou desenquadrada deixa de sustentar a divisão da receita, e o valor repassado pode voltar para a base de cálculo da casa. O problema de uma pessoa vira o problema de duas.

MEI não é obrigado a ter contabilidade. Empresa é

Essa diferença aparece bem na hora de decidir, então melhor saber antes.

O MEI é dispensado de contabilidade formal. Uma guia por mês, uma declaração por ano, e acabou. Dá para tocar sozinha.

A empresa, não. Tanto a microempresa, aquela que o pessoal chama de "empresa do Simples", quanto a LTDA precisam de escrituração e de acompanhamento contábil. Faz parte do porte, não é escolha.

E tem um detalhe prático que quase ninguém conta. Se você virar empresa e passar a trabalhar com profissionais parceiras, essas MEIs também vão precisar de acompanhamento. Não por obrigação legal delas, que não existe. É de forma preventiva, para o problema delas não virar problema seu.

Quando faz sentido continuar no MEI

Ficar é uma decisão legítima em várias situações:

Quando o MEI já não cabe

O que pode dar errado

Descobrir o estouro tarde. É o caso clássico. O salão cresce, ninguém somou o ano, e a conta aparece lá na frente com multa e juros. É também o mais fácil de evitar: basta somar o faturamento uma vez por mês.

Faturar por fora para não estourar. Além de ser irregular, tem um efeito prático chato. O dinheiro que não passa pelo CNPJ não serve para comprovar renda em financiamento, em aluguel comercial ou em crédito para o negócio.

Dividir o faturamento em outro CNPJ. Abrir um MEI no nome de um parente ou de uma funcionária para acomodar o excesso pode ser lido como simulação. O risco vai além do imposto.

Não entregar a declaração anual. Ela é obrigatória mesmo com faturamento zero. Quem deixa de entregar acumula multa e pode ficar sem emitir nota fiscal.

Esperar a Receita avisar. Avisar é obrigação sua, e tem prazo.

Perguntas frequentes

O limite do MEI vai subir? Existe mais de um projeto em discussão no Congresso, com valores diferentes de teto, e nenhum deles foi aprovado em definitivo até agora. Enquanto isso não muda, o limite que vale continua sendo R$ 81.000 por ano. Não dá para se planejar com uma regra que ainda não existe.

Vendi produtos no salão. Isso conta no limite? Conta. O limite soma serviço e mercadoria.

Faturei pouco em um mês. Posso deixar de pagar a guia? Não. Enquanto o CNPJ está ativo, a guia é devida todo mês, mesmo em mês sem faturar nada.

Se eu passar do limite, perco o CNPJ? Não. O CNPJ continua o mesmo. O que muda é o enquadramento, de MEI para microempresa, e a forma de calcular o imposto.

Sair do MEI obriga a ter contador? O MEI é dispensado de contabilidade formal. A microempresa no Simples Nacional tem obrigações e declarações que, na prática, pedem acompanhamento contábil.

Posso dar baixa em dezembro e abrir de novo em janeiro para zerar o limite? O limite é contado por ano, e dar baixa não apaga o faturamento que já aconteceu. Fora que reabrir tem regras próprias. Não é atalho.

Fechamento

A pergunta mais útil não é "como eu fico no MEI". É "quanto eu faturei nos últimos doze meses". Com esse número na mão, a decisão fica bem mais fácil, porque dá para comparar o custo de ficar com o custo de migrar e escolher com informação, e não por medo.

A Agenda Contábil faz um diagnóstico gratuito para salões e barbearias. A gente olha o seu faturamento real, mostra onde você está em relação ao limite e explica o que muda em cada cenário, com os valores na mesa. Sem compromisso de contratar nada.

Isso tudo é o nosso dia a dia

A gente é contabilidade especializada no mercado da beleza. Cuida do contrato de cada parceiro, da nota da cota-parte, das guias e do acompanhamento mês a mês, para você poder pensar no seu negócio em vez de nisso. No diagnóstico gratuito a gente olha como está a sua situação hoje e te mostra o caminho, sem compromisso.

Quem assina

Alessandra Meireles da Silva

Contadora responsável técnica pelos serviços contábeis da Agenda Contábil, inscrita no Conselho Regional de Contabilidade de Santa Catarina sob o nº 033545/O-1. Atua no mercado da beleza, aplicando a Lei do Salão-Parceiro em salões, barbearias, clínicas de estética e studios de unha.

Veja como isso funciona na prática na contabilidade para salão de beleza ou na contabilidade para barbearia.

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